quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Comentário sobre o Filme: A Menina que Roubava Livros

A Menina que Roubava Livros, filme recém-estreado repleto de conteúdos históricos e de vida. Um conteúdo em especial me chamou atenção: o das relações que se configuram ao longo da trama.
Liesiel, uma menina marcada pela opressão de uma época, inicia sua trajetória de vida com o luto pela morte do irmão. Uma experiência em que o vazio se configura em suas formas mais dolorosas, além disso, vive a ruptura de vínculo com sua mãe. Inicialmente a pequena garota vivencia duas perdas! Logo, a metáfora do livro aparece marcando o poder das ressignificações das relações humanas, um relacionar que transcende ao corpo físico e é o livro a marca familiar ao longo de sua história.
O livro configura o vínculo em sua vida, uma metáfora que diz da troca, do doar-se, da presença em suas diversas formas. Eles lhe proporcionam releituras a momentos de terror e confortam corações nas horas incertas.
Várias são as cenas em que esta jovem garota pega seu livro e amplia contextos que para muitos seriam impossíveis ressignifica-los.
Uma postura, uma possibilidade de ser operante e ativa mesmo em contingências aversivas.
Vínculos que ela constrói através da troca de histórias, tanto por meio das leituras quanto pelas pessoas as quais se relacionam.
Uma disponibilidade para aprender com o outro, sair de si. Podemos pensar que naquele momento estar só não lhe ajudaria a avançar, e ficaria fadada a dor do abandono.
O filme nos mostra que Liesiel não esquece sua dor, mais segue em frente traçando o caminho que lhe é possível. Sem desconsiderar os aprendizados que a vida lhe proporcionou, vai além, sendo autora de sua própria história.

Nádila Walter da Silva
CRP 04/33720

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Vida que pediu a Deus



Martha Medeiros

Se fosse feita uma enquete nas ruas com a pergunta "você tem a vida que pediu a Deus?", a maioria responderia com um sonoro qua, qua, qua. Lógico que alguém desempregado, doente ou que tenha sido vítima de uma tragédia pessoal não estará muito entusiasmado. Mas mesmo os que teriam motivos para estar - aqueles que possuem emprego, saúde e alguma relação afetiva, que é considerada a tríade da felicidade - também não têm achado muita graça na vida.

O mundo é habitado por pessoas frustradas com o próprio trabalho, pessoas que não estão satisfeitas com o relacionamento que construíram, pessoas saudosas dos velhos amores, pessoas que gostariam de estar morando em outro lugar, pessoas que se julgam injustiçadas pelo destino, pessoas que não aguentam mais viver com o dinheiro contado, pessoas que gostariam de ter uma vida social  mais agitada, pessoas que prefeririam ter um corpo mais em forma; enfim, os exemplos se amontoam. Se formos espiar pelo buraco da fechadura de cada um, descobriremos que estão relativamente bem, mas poderiam estar melhor.

Por que não estão? Ora, a culpa é do governo, do Papa, da sociedade, do capitalismo, da mídia, do inferno zodiacal, dos carboidratos, dos hormônios e demais bodes expiatórios dos nossos infernizantes dilemas. A culpa é de tudo e de todos, menos nossa.

Um amigo meu, psiquiatra, costuma dizer uma frase atordoante. Ele acredita que todas as pessoas possuem a vida que desejam. Podem até não estar satisfeitas, mas vivem exatamente do jeito que acham que devem. Ninguém as força a nada: nem o governo, nem o Papa, nem a mídia. A gente tem a vida que pediu, sim. Se ela não está boa, quem nos impede de buscar outras opções?

Quase subo pelas paredes quando entro nesse papo com ele porque respeito muito as fraquezas humanas. Sei como é difícil interromper uma trajetória de anos e arriscar-se no desconhecido. Reconheço os diversos fatores - família, amigos, opinião alheia - que nos conduzem ao acomodamento.

Por outro lado, sei que meu amigo está certo. Somos os roteiristas da nossa própria história, podemos dar o final que quisermos para nossas cenas. Mas temos que querer de verdade. Querer para valer. É este o esforço que nos falta.

A mulher que diz que adoraria se separar mas não o faz por causa dos filhos, no fundo não quer se separar. O homem que diz que adoraria ganhar a vida em outra atividade, mas já não é jovem para experimentar, no fundo não quer tentar mais nada. 

É lá no fundo que as razões verdadeiras levam as pessoas a mudarem ou a manterem as coisas como estão. É lá no fundo que os desejos e as necessidades se confrontam. Em vez de nos queixarmos, ganharíamos mais se nadássemos até lá embaixo para trazer a verdade à tona. E então deixar de sofrer.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ingredientes da Comunicação

O que eu estou sentindo? O que eu sinto por esta pessoa? O que eu senti diante deste acontecimento? O que eu sinto é o que eu quero?Você já se fez essas perguntas? Como é difícil falar do que sentimos. Sentir relaciona-se aos sentimentos, aquilo que faz sentido pra mim, que só o meu coração sabe responder. É profundo e diferente do pensamento. De acordo com Martha Medeiros “sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado para fora. Sentir alimenta, sentir ensina, aquieta. Fazer é muito barulhento. Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado...”. E como falar de sentimentos nas relações amorosas? Temos dificuldades de nomear o que sentimos pra gente mesmo e para o outro ainda mais: o que eu sinto é amor ou vontade de controlar? Eu amo ou não quero perder? Amor ou medo? Como eu comunico para o outro o que eu sinto? Mas, também, é tudo que devo comunicar? O que eu sinto esta me fazendo bem ou mal? O antropólogo Bateson que foi um grande pesquisador sobre a comunicação humana, falava que todas as mensagens possuem um nível de objeto e um nível de relação. Exemplo: a esposa pede para o marido levar ela ao aeroporto as 04:00 da manhã. O nível do objeto é o marido ir ao aeroporto as 04:00 da manhã e assim( falo de possibilidade, não certeza) a resposta do marido seria não( não é fácil acordar as 04:00 da manhã para ir ao aeroporto), pois, também, existem vários outros meios dela ir. Mas ao nível das relações, possivelmente, ele diria sim por não querer magoar a esposa, sendo ela uma pessoa importante para ele. Mas ele diz um sim nem um pouco prazeroso e isso é captado pela esposa que diz que aceitaria só se fosse com prazer; o desfecho disso? Uma discussão daquelas, mesmo porque é difícil acordar de madrugada para ir ao aeroporto com prazer, não é verdade? Talvez a esposa entendesse que por isso ele não a ama, mas será isso? Outro exemplo é quando queremos que nosso parceiro escolha entre uma churrascaria e uma pizzaria e quando ele escolhe uma ou a outra brigamos pela opção que ele não escolheu. Isso tudo são maneiras de infernizar nossos relacionamentos. Fazemos, às vezes, sem perceber. Ao contrário, damos oportunidade para negociar? Qual é o meu desejo? Qual é o desejo dele? Talvez traçamos caminhos difíceis, mas mais difícil ainda seria lidar com a realidade dos nossos sentimentos e depois saber comunicar e como comunicar isso aos nossos parceiros e nos abrir para uma conversa. Sim é difícil, mas é uma construção e a possibilidade de cada um ser aceito pelo o que é. Mas para isso, primeiro eu preciso saber de mim, do que eu sinto, depois saber o que falar para o outro daquilo que sinto e, ainda, escutar o que este outro tem para falar dele e de seus sentimentos. E quando isso não acontece? O grande risco é um criar expectativas demais sobre o outro, uma imagem do parceiro que não é real e querer que esse se encaixe nesses moldes criados, formando assim uma relação de controle ( para ser coerente com aquilo que imagino), mentiras (porque o outro tenta escapar disso a todo o momento, pois sufoca), sem espontaneidade, leveza, sem trocas e aprendizados. Assim, a possibilidade para iniciar a construção de uma comunicação saudável é primeiro saber sobre nós mesmos, daquilo que faz sentido para nós, depois saber o que disso comunicar e, ainda, escutar o ponto de vista deste outro. Somos seres diferentes, precisamos saber disso. Talvez sabendo disso estaremos prontos para construir uma relação de amor e paz com o outro. Texto: Camila Lobato - Psicoterapeuta do NASS

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Desafios para famílias com filhos adolescentes

Muito se tem discutido sobre os temas: educação de filhos, relações familiares, entrada de filhos na adolescência, limites etc. Vemos uma grande quantidade de pais inseguros e perdidos quanto à sua função de educadores, não sabendo o que é adequado ou não na educação de seus filhos. O conceito de família vem se modificando ao longo dos anos e podemos encontrar famílias com estruturas diversificadas. Mesmo com essa modificação , algo se manteve, é na família que aprendemos e recebemos o nosso mapa para trilhar no mundo. De acordo com Teoria Sistêmica, a família é vista como um sistema dinâmico, vivo e que se modifica de acordo com o tempo, com trocas internas (entre os membros que a compõem) e externas (na relação com o mundo). Passa por ciclos que são considerados vitais e que trazem aprendizados e novas possibilidades de irem além em seu processo evolutivo. Vou ater-me ao ciclo de vida de pais com filhos adolescentes e não tenho pretensão de criar bula ou manual para pais e sim o desejo de contribuir para um pensamento reflexivo. O período da adolescência traz consigo mudanças físicas, emocionais e sociais, e para a família grande vulnerabilidade. O adolescente nesta etapa da vida questiona e contesta as regras, as normas, as crenças e todo o funcionamento familiar como tentativa de criar uma nova forma de ser, uma identidade baseada em sua nova visão de mundo. Se na infância a criança acreditava em tudo que lhe era transmitido, na adolescência acontece o oposto disso, torna-se descrente, tenta desconstruir grande parte do que lhe foi ensinado, vive suas questões intensamente e com pouca noção de realidade. De acordo com Rosset, 2003... “é na família que experimentamos tanto o pertencimento quanto a diferenciação. Pertencer significa participar, saber-se membro desta família, partilhar as suas crenças, valores, regras, mitos e segredos. Diferenciar refere-se à afirmação de sua singularidade, à sua individuação e ao seu direito de pensar e expressar-se independentemente dos valores defendidos por sua família”. Sendo assim, é na adolescência que temos a oportunidade de fazer a nossa primeira tentativa de constituir um EU, de buscar uma identidade própria, de tentarmos fazer as coisas à nossa maneira. Como não sabemos fazer isso no primeiro momento, buscamos em nosso meio os grupos para nos identificarmos, para reforçar nossa autoestima e começarmos a treinar o papel de adulto. É fundamental que os pais trabalhem o conceito de flexibilidade e autoridade nesse processo, permitindo ao adolescente explorar algumas nuances de sua autonomia, mas ao mesmo tempo dando lhe responsabilidades. Sem organização e disciplina não é possível preparar os filhos para a vida fora de casa. Toda relação familiar para funcionar de forma adequada precisa de hierarquia para que os papeis e funções fiquem bem definidos. Adolescente pede limite, lei e organização e a família é peça chave para esse processo. Caso um dos pais tenha tido dificuldades em seu processo de diferenciação, de busca pela sua identidade, terá dificuldades em ajudar o filho nesse processo. Tem pais que nem saíram da adolescência e que quando veem seu filho navegar por esses mares, sentem-se como seus colegas ou muitas vezes não conseguem dar passagem para esse filho caminhar e crescer. Outras vezes podem ter sido tão oprimidos que acabam por repetir isso com o filho gerando conflitos na hora de estabelecer as regras ou simplesmente não conseguindo se posicionar com autoridade na relação. Acredito que para que esse ciclo aconteça de forma saudável faz-se necessário um exercício de compaixão, compreensão, e acolhimento das dificuldades e angústias provenientes deste processo. É um momento turbulento para toda família, mas que possibilita a evolução e o crescimento de todos e que irá prepará-los para adaptações em seus ciclos posteriores. Fernanda Seabra CRP 04/18317- Psicóloga clínica e educacional, com formação em Psicoterapia familiar Sistêmica Referência bibliográfica: ROSSET, Solange. Pais e filhos – Uma relação delicada. ed. Sol 2003

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Para Refletir!

“O que acontece no meio” de Martha Medeiros “Vida é o que existe entre o nascimento e a morte”. O que acontece no meio é o que importa. No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo. Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos. No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa. Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte. No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença. Que adultos se divertem mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio. No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo). Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo. No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.”

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Atravessando 2013 para 2014



“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, já dizia Guimarães Rosa.

Mais um ano teremos em breve para atravessar: muitas coisas vamos levar; outras, precisamos deixar. Não vamos levar, ou não devemos levar, porque já não tem a forma do nosso corpo, já não fazem sentido para nós. Talvez sejam coisas que nos levam sempre aos mesmos lugares e impedem o ir além. E devemos carregar e fortalecer aquilo que realmente faz sentido para cada um, o que nos coloca em movimento e ajuda a realizar a melhor versão de nós mesmos. Importante para quem quer movimento. Todos nós queremos? Será? Não é uma tarefa fácil, exige trabalho, mas nos faz desdobrar, integrar, esta por inteiro na vida, nas relações de forma saudável mesmo com os limites e dificuldades.

 Nessa passagem que leva a reflexões e questionamentos, podemos ser tomados por dois pensamentos que nos colocam em xeque o apego ao velho e o medo, a preocupação (pré – ocupar) com o novo. Pergunto: o que nos leva a não passarmos pelas coisas, a não pensarmos na travessia? Será que acomodamos em excesso ao velho e não abrimos para o novo?  Ser humano não pensa em travessia, não queremos passar pelas coisas, queremos é chegar ou acomodar no velho. Porque será?

 Nesse artigo, quero, portanto refletir com vocês a travessia para o próximo ano: o caminho de 2013 para 2014. E, assim, pensarmos nas coisas boas que o novo reserva, nas alegrias que podem vir, com o conseqüente desapego ao medo, à preocupação, ao desconhecido que um ano que está para começar nos reserva. Mas já vou logo dizendo: não espere que as coisas mudem simplesmente porque um novo ano está chegando. A mudança esta em cada um de nós!Vamos ser a mudança que queremos ver, não espere pela mudança dos outros.Quer um ano melhor? Não espere por ninguém. Tenha coragem para construir o seu caminho e fazer a sua travessia.

Mas pra que falar de ano novo? O ano continuará tendo a mesma quantidade de dias, o dia continuará tendo 24 horas, a noite e o dia vão se alternar, além de dias quentes e frios...Tudo igual. O novo será cada um de nós. As soluções que vamos arrumar, assim como os problemas. O ponto de vista diante de uma situação. Como continuaremos numa relação. O que vamos fazer de melhor e como iremos lidar com os desentendimentos seja nas relações, trabalho e com a gente mesmo. Apenas essas coisas podem mudar. E, portanto, para a travessia para o ano novo o que mais precisamos é coragem. E não uma coragem comum, mas extraordinária. E o mundo esta cheio de covardes; por isso as pessoas param de crescer, ir além e movimentar.

Como se pode crescer sendo covarde? A cada nova oportunidade você recua, fecha os olhos? Que movimento fez no ano de 2013? Como poderá ser melhor em 2014?

“A entrada para o novo é a única coisa capaz de transformar você; não há outro meio de transformação. Se você deixar que o novo entre, você nunca mais será o mesmo” Autor Desconhecido

Desejo a todos vocês uma maravilhosa travessia para 2014, com um caminho cheio de coragem, responsabilidade, paz, movimentos, planos reais, amor e saúde. O caminho é nosso. Nós somos autores da travessia que queremos construir. Agradeço a vocês, clientes, colegas de trabalho, leitores e mestres que atravessaram comigo este ano de 2013. Que venham novas travessias!

Texto: Camila Lobato

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Assumir um papel ativo no processo do vir a ser

 
Lilian Graziano




Recentemente surpreendi a mim mesma lendo uma matéria sobre uma jogadora de futebol (logo eu, que não tenho nenhuma afinidade com esse esporte!). Na verdade, não se tratava de uma jogadora qualquer, mas de uma brasileira que foi reconhecida pela quinta vez como a melhor jogadora do mundo. Talento futebolístico a parte, confesso que a história me inspirou. O curioso que a fonte de inspiração veio muito mais da pessoa do que da atleta (que pesem seus méritos como tal). Nascida em uma cidade com menos de 15 mil habitantes, localizada no sertão alagoano, essa mulher não chegou a completar o ensino fundamental. Entretanto, hoje fala espanhol, inglês e... sueco, língua em que é capaz de se comunicar também pela escrita, em função de ter jogado cinco anos na Suécia.
 
“Ah, bom...” – diriam os mais cínicos - “a atleta fala sueco porque morou na Suécia!” Como se aproveitar das oportunidades e desafios para o próprio crescimento pessoal fosse característica de todos os seres humanos. Lembro-lhe, caro leitor, que se assim o fosse, não teríamos Presidentes da República que depois de oito anos no poder, não são capazes de falar uma palavra sequer em inglês! Mas essa já é outra conversa...
 
Além das diferentes línguas, a atleta diz também ter aprendido desde a cultura dos países em que viveu até a postura necessária para falar em público. E o mais interessante: orgulha-se de ter aprendido tudo sozinha. Atualmente, estava aprendendo a tocar violão. Pela internet.
 
Apesar disso, ela não nega a importância das outras pessoas no seu crescimento pessoal. Ao contrário, diz perceber que “o mundo a tem educado”.
 
Pessoas como essa fazem mais do que deixar que a vida as transforme. Dedicam suas vidas para provocar essas mudanças. Querem ser melhores. Mas muito antes de competirem com os outros, elas almejam tornar-se a melhor versão de si mesmas. Não seria esse um traço de saúde mental? Poderia haver uma característica humana mais essencial?
 
Durante meus anos de prática clínica, tenho recebido pessoas com diferentes níveis de sofrimento pessoal – algumas delas com níveis bastante altos. Porém, a experiência me mostrou que o montante de sofrimento não é o melhor indicativo de prognóstico do paciente. Ou seja, não é verdade que os que vivem um sofrimento mais profundo demorarão mais a se recuperar do que aqueles que experimentaram um sofrimento moderado.
 
A característica que faz com que as pessoas se recuperem mais rapidamente é o que chamamos em Psicologia Positiva de “iniciativa para o crescimento pessoal”, que nada mais é do que essa predisposição para nos tornarmos pessoas melhores.
 
Nesse sentido, talvez devêssemos parar de ensinar aos nossos filhos a competir com os outros, mostrando-lhes que a única batalha que importa é aquela que travamos com nosso próprio eu e que, exatamente por isso, nos leva à superação. Afinal, é sempre bom lembrarmos que de nada adianta ser uma metamorfose ambulante quando não se sabe para onde ela caminha.
 
Fonte: Revista Psique – março / 2011.